Mais sobre o Payador: Jayme Caetano Braun

Postado por Djeine A. Dalla Corte | sexta-feira, agosto 29, 2008 | , , , | 0 comentários »

A foto mostra Jayme (como goleiro, segurando a bola nas mãos) no jogo do Colégio Nossa Senhora da Conceição em Passo Fundo - RS, onde estudou.

"Jayme nasceu em São Luiz Gonzaga mas, naquele momento, tremeram os alicerces dos quatro pontos cardeais do Rio Grande, porque nascia o grande e inimitável payador desta terra, que terá o calendário mudado para antes e depois de Jayme Caetano Braun."

"Jayme Caetano Braun é, hoje, um nome repetido em todos os quadrantes do Rio Grande...

Seus livros nada mais são do que instantâneos de algumas notas que o auto conservou. O mais perdeu-se e se perderá nas noites de galpão, nas reuniões sociais e nos encontros de payadores onde Jayme, de improviso, emocionado e de olhar penetrante, solta ao sabor de uma milonga o rosário de ouro das suas mais profundas composições. Ele é um repentista soberbo encarnando, nos momentos de exaltação, o panorama inteiro do Rio Grande.

Na pasmosa transfiguração do espírito revive nele, nestes momentos, o índio inculto, nas oferendas tribais, no soturno socalcar de couros estirados sobre troncos ocos, linguagem grave de evocações lendárias do selvagem galpão.

Revive o homem de chiripá e botas de garrão de touro, na inimitável expressão dos dias da conquista, onde se viviam momentos de couro cru e a lei era a faca, nas distâncias infinitas do pampa, quando os monarcas da amplidão transpunham distâncias ao ritmo de quatro-patas e, ao evoaçar de crinas de baguais recém-domados.

É o peão de estância, no seu linguajar grosseiro e pitoresco, a reviver pealos porteira afora e a decompor expressões desconhecidas da gramática, porque se geraram nos atropelos de campereadas, que não se repetem, sovando rédeas e pelegos.

Na misteriosa transubstanciação das rimas, abstrai o seu tipo físico e veste a expressão de domadores e vaqueanos, ao trote de garanhões poderosos, destilando ao compasso de patas a rima bárbara de horizontes chucros. Os que ouvem estranham-se de um Rio Grande com pasto, percebendo a bulha de tiradores e o tinido ancestral das esporas de ferro, riscando ilhargas de baguais. Afundam pelos descampados bravios do Continente de São Pedro, em caravoltas da História, remontando às jornadas da Colônia do Sacramento, onde se forjaram os gaúchos de três pátrias. Penetram os momentos das arriadas nas vaquerias do mar, no comércio bruto de couro e sebo, ao zunir de boleadeiras e laços e no rechinar de arreios, quando o homem se impunha às leis bárbaras de uma natureza crua, entre tropéis e manadas...

Depois, na transposição maravilhosa da inteligência, ele nos repõe nos nossos dias, frente ao fogo de um galpão evocativo, embebidos da visionária e impressionante retrospecção do passado, para nos sentirmos mais rio-grandenses e compreendermos que, somente a um homem a cavalo, poderia ser atribuída a tarefa de vigiar como sentinela este imenso Brasil.

Jayme nasceu em São Luiz Gonzaga mas, naquele momento, tremeram os alicerces dos quatro pontos cardeais do Rio Grande, porque nascia o grande e inimitável payador desta terra, que terá o calendário mudado para antes e depois de Jayme Braun."

1969, Porto Alegre

Texto de: Balbino Marques da Rocha
Prefácio do livro: Potreiro de Guachos, de Jayme Caetano Braun.

***

O PAYADOR EM 17 DATAS

Jayme Caetano Braun deixa uma extensa obra em livros e discos:

1924 – (30 de janeiro) Jayme Caetano Braun nasce em Timbaúva, antigo 3º Distrito de São Luiz Gonzaga, hoje município de Bossoroca. O pai era filho de imigrantes alemães e a mãe, uma chirua bugra.

1940 - Muda-se com o pai João Aloysio e família para Passo Fundo, escreve seus primeiros versos. Nasce artisticamente. Responde questões de história e geografia em versos, estudante que foi do Colégio Conceição. 1942 - Presta o serviço militar em Passo Fundo

1943 – Começa a publicar poemas no jornal A Notícia, de São Luiz Gonzaga.

1945 – Começa a atuar na política, participando em palanques de comício como payador. O poema O Petiço de São Borja, publicado em revistas e jornais do país, fala de Getúlio Vargas. Participa da campanha de Ruy Ramos, com o poema O Mouro do Alegrete, como era conhecido. Nos anos seguintes, participa das campanhas de Leonel Brizola, João Goulart e Egidio Michaelsen.

1948 – Dirige o programa radiofônico Galpão de Estância, em São Luiz Gonzaga.

1954 – Publica Galpão da Estância, o primeiro livro.

1958 – Sai a primeira edição da coletânea De Fogão em Fogão. 1962 - Se lança candidato a Deputado Estadual e sua votação permite que fique suplente, porém nunca atuou como parlamentar.

1965 – Lança o livro Potreiro de Guaxos.

1966 – Publica três livros: Bota de Garrão, Brasil Grande do Sul e Passagens Perdidas.

1973 – Participa do programa semanal Brasil Grande do Sul, na Rádio Guaíba, com produção de Flávio Alcaraz Gomes. O programa ficou no ar por 15 anos.

1990 – Lança o livro Payador e Troveiro.

1993 – Lança o disco Paisagens Perdidas, com sucessos como Mangueira de Pedra, Tio Anastácio, Cordeiro Guacho e Payada da Primavera.

1993 – Sai o disco Poemas Gaúchos, com sucessos como Payada da Saudade, Piazedo, Remorsos de Castrador, Cemitério de Campanha e Galo de Rinha.

1996 – Publica a antologia poética 50 Anos de Poesia.

1999 – (8/Julho) Jayme Caetano Braun morre em Porto Alegre.

Jayme Caetano Braun,
Filho de São Luiz Gonzaga,
No terceio duma adaga,
Nunca se enliou nas esporas.
O payador das auroras,
O campeador gauchesco,
Abriu coivara payando,
Alçou um vôo acenando
Com a aba do chapéu,
Sabendo que, lá no céu,
Existem alguém esperando.

Quem sabe o Ciro Gavião,
Quem sabe Aureliano Pinto,
Quem sabe o negro retinto,
Que se chamava Anastácio,
Quem sabe até don Pascácio,
Andejo dos corredores,
Guasqueiros, alambradores,
Ginetes da cepa antiga
Vão esperar com cantiga
O maior dos payadores.

Deixou tropilhas de rimas,
Retouçando nos galpóes,
As futuras gerações
Seguirão teu catecismo,
Honrarão teu gauchismo
Que jamais será disperso.
Pois quem deixou universo
De payadas igual às tuas
Volta nas noites de lua
Para enfrenar mais um verso.

por Telmo de Lima Freitas


Pesquisa de: Hilton Luiz Araldi

0 comentários