Poesia Jayme Caetano Braun

Postado por Djeine A. Dalla Corte | quarta-feira, outubro 21, 2009 | , | 0 comentários »

Arroz de Carreteiro
Autoria: Jayme Caetano Braun

Nobre cardápio crioulo das primitivas jornadas,
Nascido nas carreteadas do Rio Grande abarbarado,
Por certo nisso inspirado, o xiru velho campeiro
Te batizou de "Carreteiro", meu velho arroz com guisado.

Não tem mistério o feitio dessa iguaria bagual,
É xarque - arroz - graxa - sal
É água pura em quantidade.
Meta fogo de verdade na panela cascurrenta.
Alho - cebola ou pimenta, isso conforme a vontade.

Não tem luxo - é tudo simples, pra fazer um carreiteiro.
Se fica algum "marinheiro" de vereda vem à tona.
Bote - se houver - manjerona, que dá um gostito melhor
Tapiando o amargo do suor que -
às vezes, vem da carona.

Pois em cima desse traste de uso tão abarbarado,
É onde se corta o guisado ligeirito - com destreza.
Prato rude - com certeza,
mas quando ferve em voz rouca
Deixa com água na boca a mais dengosa princesa.

Ah! Que saudades eu tenho
dos tempos em que tropeava
Quando de volta me apeava
num fogão rumbeando o cheiro
E por ali - tarimbeiro, cansado de bater casco,
Me esquecia do churrasco saboreando um carreteiro.

Em quanto pouso cheguei de pingo pelo cabresto,
Na falta de outro pretexto indagando algum atalho,
Mas sempre ao ver o borralho onde a panela fervia
Eu cá comigo dizia: chegou de passar trabalho.

Por isso - meu prato xucro, eu me paro acabrunhado
Ao te ver falsificado na cozinha do povoeiro
Desvirtuado por dinheiro à tradição gauchesca,
Guisado de carne fresca, não é arroz de carreteiro.

Hoje te matam à Mingua, em palácio e restaurante
Mas não há quem te suplante,
nem que o mundo se derreta,
Se és feito em panela preta, servido em prato de lata
Bombeando a lua de prata sob a quincha da carreta!

Por isso, quando eu chegar,
nalgum fogão do além-vida,
Se lá não houver comida já pedi a Deus por consolo,
Que junto ao fogão crioulo,

Quando for escurecendo, meu mate -amargo sorvendo,
A cavalo nalgum tronco, escute, ao menos, o ronco
De um "Carreteiro" fervendo.

Poesia Jayme Caetano Braun

Postado por Djeine A. Dalla Corte | quarta-feira, outubro 21, 2009 | , | 0 comentários »

Hora da Sesta

Autoria: Jayme Caetano Braun

O sol parece uma brasa
na cinza do firmamento.
Sobre o campo sonolento
ninguém está de vigília,
na lagoa - uma novilha,
bebe - de ventas franzidas
e duas graças perdidas
sentam na grama tordilha.

No galpão - tudo é silêncio,
e a cachorrada cochila
e a peonada se perfila,
estirada nos arreios,
só se escutam os floreios
da mamangava lubana
fazendo zoada, importuna,
nos buracos dos esteios.

Rompe o silêncio da seta
na guajuvira da frente
o tá-tá-tá impertinente
do bico dum pica-pau.
No galpão - um índio mau
quase enleia na açoiteira
a naniquinha poedeira
que vem botar no jirau.

Mas a soneira é mais forte
do que os gritos da galinha
e até as chinas da cozinha
cochicham meio em segredo,
Não há rumor no arvoredo,
nos bretes e nas mangueiras,
dormem as velhas figueiras
só quem não dorme é o piazedo.

É hora de caçar lagartos
e peleguear camoatim,
hora das artes sim fim
que o grande faz que ignora
e quanto guri de fora
criado no desamor,
numa infância de rigor
só foi guri nessa hora.

Hora de sesta - Saudades,
de juventude e de infância,
Hoje - ao te ver à distância,
quando a vida já raleia,
qual um sol bruxoleia
num canhadão se perdendo,
hoje - afinal - eu compreendo
por que guri não sesteia!

Poesia Jayme Caetano Braun

Postado por Djeine A. Dalla Corte | quarta-feira, outubro 21, 2009 | , | 0 comentários »

Remorsos de Castrador

Autoria: Jayme Caetano Braun

Um pealo - um tombo - grunhidos
de impotente rebeldia,
o sangue da cirurgia
No laço e no maneador.
Nada pra tapear a dor
do potro que --- sem saber,
perdeu a razão de ser
na faca do castrador.

Há um bárbara eficiência
nessa rude medicina,
a faca é limpa na crina
que alvoroçada revoa,
pouco interessa que doa,
a dor faz parte da vida.
Há de sarar em seguida,
desde guri tem mão boa.

Aprendeu --- nem sabe como,
a estancar uma sangria.
Sem noções de anatomia
é um cirurgião instintivo
que --- por vezes --- pensativo,
afundou na realidade
da crua barbaridade
desse ritual primitivo.

Já faz tempo --- muito tempo,
que um dia --- na falta doutro,
castrou seu primeiro potro,
um zaino negro tapado.
Que pena vê-lo castrado,
o entreperna coloreando
e os olhos recriminando,
num protesto amargurado.

Depois do zaino --- um tordilho,
depois --- baios e gateados,
um por um sacrificados
pela faca carneadeira
e o rude altar da mangueira
a pedir mais sacrifícios
dos bravos fletes patrícios,
titãs de campo e fronteira.

Por muitos e muitos anos
andou nos galpões do pampa,
castrando pingos de estampa
com renomada experiência,
cavalos reis de querência,
parelheiros afamados,
pela faca condenados
a morrer sem descendência.

Às vezes, durante a noite,
um pesadelo o volteia
e o remorso paleteia.
Castrador!... que judiaria!
E quando sem serventia
por aí deixar semente
no mundo onde há tanta gente
pedindo essa cirurgia.

E ali está --- defronte ao rancho,
pastando o mouro do arreio,
pingo de campo e rodeio
que castrou --- quando potrilho.
O mouro --- mesmo que filho
do xirú velho campeiro,
o último companheiro
do seu viver andarilho.

Na primavera --- outro dia,
um potranca lazona,
linda como temporona,
vestida em pelagem de ouro,
veio se esfregar no mouro,
mordiscando pelo e crina,
mais amorosa que china
num princípio de namoro!

E o mouro? --- pobre do mouro!
Não pode ter namorada.
Veio, direto à ramada,
numa agonia sem fim,
olhando pro dono, assim,
num bárbaro desespero,
como dizendo: parceiro,
vê o que fizeste de mim!

Poesia Jayme Caetano Braun

Postado por Djeine A. Dalla Corte | quarta-feira, outubro 21, 2009 | , | 0 comentários »

Galo de Rinha

Autoria: Jayme Caetano Braun

Valente galo de rinha,
guasca vestido de penas!
Quando arrastas as chilenas
No tambor de um rinhedeiro,
No teu ímpeto guerreiro
Vejo um gaúcho avançando
Ensangüentado, peleando,
No calor do entreveiro !

Pois assim como tu lutas
Frente a frente, peito nu.
Lutou também o chiru
Na conquista deste chão...
E como tu sem paixão
Em silêncio ferro a ferro,
Cala sem dar um berro
De lança firme na mão!

Evoco neste teu sangue
Que brota rubro e selvagem.
Respingando na serragem,
Do teu peito descoberto,
O guasca de campo aberto,
De poncho feito em frangalhos.
Quando riscava os atalhos
Do nosso destino incerto!

Deus te deu , como ao gaúcho
Que jamais dobra o penacho,
Essa de altivez de índio macho
Ques ostentas Já quando pinto:
E a diferença que sinto
E que o guasca bem ou mal!
Só lutas por um ideal
E tu brigas pôr instinto!

Pôr isso é que numa rinha
Eu comtigo sofro junto,
Ao te ver quase defunto.
De arrasto , quebrado e cego,
Como quem diz Não me entrego:
Sou galo, morro e não grito
Cumprindo o fado maldito
Que desde a casca eu carrego!

E ao te ver morrer peleando
No teu destino cruel.
Sem dar nem pedir quarteu.
Rude gaúcho emplumado.
Meio triste , encabulado,
Mil vezes me perguntei
Pôr que é que não me boleei
Pra morrer no teu costado?

Porque na rinha da vida
Já me bastava um empate!
Pois cheguei no arremate
Batido , sem bico e torto ..
E só me resta o conforto
Como a ti, galo de rinha
Que se alguem me
dobrar - me a espinha
Há de ser depois de morto!

Música Gaúcha: tradicionalismo versus tchê music

Postado por Djeine A. Dalla Corte | quarta-feira, outubro 21, 2009 | | 0 comentários »

Reportagem de capa do Diário Gaúcho, de 17 de outubro de 2009:

Será o fim da tchê music?

Músicos do movimento que abandonou a pilcha nos palcos, desafiando patrões de CTGs, voltam atrás e rendem-se ao tradicionalismo.

Três anos após a polêmica que varreu bailantas Rio Grande afora, os filhos à casa tornam. Em 2006, de um lado do embate, estavam os integrantes das chamadas bandas de tchê music, do outro, os irredutíveis tradicionalistas.

Agora, nomes até pouco tempo da tchê music, como Luiz Cláudio e o grupo Quero-Quero, estão voltando às origens. Outros, como o Tchê Barbaridade, tentam o meio-termo. Será o início do fim da tchê music? Eles serão aceitos de volta nos CTGs?

Pelas palavras do presidente do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF), Manoelito Savaris, não será tão simples assim.

– Se voltarem a fazer música gaúcha tradicional, tendo a postura adequada, serão contratados. Mas poderão ter dificuldade, pois haverá desconfiança – avisa o tradicionalista.

– Quem for contratá-los terá que tomar certos cuidados. Eles terão que comprovar que voltaram ao tradicionalismo – sustenta Manoelito.

Quem for voltar, que volte por inteiro:

– Se quiserem disputar o mercado, que venham por inteiro. Existem 900 galpões de CTGs realizando bailes e fandangos pelo Rio Grande do Sul!

Crítico de todo e qualquer tipo de radicalismo com que tradicionalistas tratam a questão, o folclorista e pesquisador Paixão Côrtes ressalta:

– Sou contra qualquer medida proibitiva, mas sou a favor de conceituação, da diferenciação dos estilos claramente.

E, se o presidente do IGTF, Manoelito, aposta que os tchês têm prazo de validade:

– Eles não guardam raiz com nada!

Aí, o eterno Laçador bem que concorda:

– Todo modismo tem tempo limitado, é circunstancial, consumista...

Quero-Quero, um dos grupos mais renomados, teve apenas um DVD em estilo tchê music e não quis continuar na linha. Foi em 2005, com Ave Fandangueira ao Vivo.

– Tentamos passar para um mercado que estava se abrindo. Mas o público mais fiel chiou e com razão. Nossa veia é tradicional – define o vocal, André Lucena.

Para confirmar o que diz, o músico ressalta que o grupo nunca deixou de usar toda a vestimenta gaúcha nos palcos.

– A gente ouvia: “O Quero-Quero tá na tchê music, então, não toca mais no nosso CTG”. Mas já estamos recebendo convites novamente – relata o integrante do grupo.

Quanto ao motivo da volta às origens, o cantor não poupa palavras, ainda que com um pouco de receio de provocar a ira dos adeptos da tchê music:

– Nós somos muito críticos em relação à musicalidade. O que observamos, sem querer depreciar ninguém, é que as letras da tchê music eram muito pobres!

Os fãs já podem agendar-se, porque o retorno do grupo ao tradicionalismo será marcado pelo lançamento do álbum Quero-Quero 20 anos de História. Deve estar nas lojas em dezembro.

Em 2006, Luiz Cláudio declarava: “Abandonamos a pilcha para ficar mais perto do público”. Hoje, voltou a usar bombacha e, definitivamente, como gosta de ressaltar.

– O nosso público começou a nos cobrar músicas tradicionais. Nunca cuspi no prato que comi, apenas segui um caminho que achei conveniente na época. Voltei para ficar – assegura.

Durante o seu tempo de tchê music, os CTGs não o aceitavam. Agora, tem esperança que a situação mude:

– Já pilchado, fiz o encerramento da Semana Farroupilha em Canoas.

Um dos primeiros a saber da mais recente mudança de Luiz Cláudio foi Manoelito, que, em 2006, presidia o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), hoje comandado por Oscar Gress (o Diário tentou contato, mas Oscar está em viagem). Luiz Cláudio enviou e-mail a Manoelito, com a capa do novo CD e com a música Se o Rio Grande me Precisa – na “nova” linha tradicionalista.

– Fiz isso para me retratar com ele e comunicar a mudança. Ele respondeu muito bem – conta o músico.

Direto de Itajaí, Santa Catarina, onde Tchê Garotos fez show recentemente, o gaiteiro e vocalista Markynhos Ulyian nega o rótulo de tchê music para o grupo. Mas não dá para negar que foi justamente quando abandonaram a fase tradicionalista, que estes gaúchos começaram a bombar nacionalmente.

– Tchê music não existe no resto do país. Em São Paulo, por exemplo, somos sertanejos. Em novembro, lançaremos o CD Tchê Garotos – Luau Sertanejo – conta.

Quanto aos grupos que estão voltando para o tradicionalismo, Markynhos é definitivo:

– Acredito que é mais uma forma de desespero deles, atrás do ganha-pão.

Em busca de “um ponto de equilíbrio entre as vertentes”, como gosta de argumentar, o Tchê Barbaridade lança o CD Cante e Dance com faixas bem mais campeiras como Trancaço, escrita por Mauro Moraes, premiado em vários festivais nativistas.

– A gente vai tentar achar um caminho para unificar as duas ideias, o tradicional com o novo. Já temos músicas com esta perspectiva – afirma o vocalista e líder do grupo, Marcelo Noms.

Mesmo perseguindo o meio-termo com o resgate do tradicional, o Tchê Barbaridade não pretende vestir a bombacha de novo.

– Temos uma cantora (Carmen). Colocá-la vestida de prenda é pedir para andar para trás! – sentencia o músico, que finaliza com uma observação:

– Deixamos de ser um objeto cultural, para ser um grupo totalmente ligado à música.


JOSÉ AUGUSTO BARROS | jose.barros@diariogaucho.com.br

Dê sua opinião sobre o tema!