O Negrinho do Pastoreio - João Simões Lopes Neto

Postado por Djeine A. Dalla Corte | quarta-feira, dezembro 17, 2008 | , , , | 0 comentários »

É bem conhecida dos gaúchos a história do negrinho judiado por seu patrão e que, ao perder a tropilha de tordilhos, é jogado ao formigueiro para ser devorado pelas formigas. Na procura dos cavalos porém, ele conta com a ajuda da sua madrinha, Nossa Senhora, a qual faz com que cada pingo do toco de vela que ele carrega vire uma nova luz e lhe dá para a eternidade, o baio e a tropilha de tordilhos. Até hoje, ao perder algo importante, se acende uma vela ao negrinho pedindo ajuda na procura.

Bem, muitas versões já foram escritas e eu não me atrevo a tentar fazer uma nova, não depois de ler esta de João Simões Lopes Neto, que usa os termos de nosso vocabulário gaudério, muitos que nós nem usamos mais e que correm o risco de serem esquecidos pelas novas gerações.

Então, sem mais rodeios, o Gaudérios traz o texto "O Negrinho do Pastoreio", encantem-se:

***

Do livro "Contos Gauchescos e Lendas do Sul"
Autor: João Simões Lopes Neto


O NEGRINHO DO PASTOREIO

NAQUELE TEMPO os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem divisas nem cercas; somente nas volteadas se apanhava a gadaria xucra e os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos...

Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de onças e meias-doblas e mais muita prataria; porém era muito cauíla e muito mau, muito.

Não dava pousada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no inverno o fogo da sua casa não fazia brasas; as geadas e o minuano podiam entanguir gente, que a sua porta não se abria; no verão a sombra dos seus umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas cacimbas.

Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se com ele, porque o homem só dava para comer um churrasco de tourito magro, farinha grossa e erva-caúna e nem um naco de fumo… e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira, que parecia que era o seu próprio couro que ele estava lonqueando...

Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino cargoso como uma mosca, para um baio cabos-negros, que era o seu parelheiro de confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como carvão e a quem todos chamavam somente o — Negrinho.

A este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem.

Todas as madrugadas o Negrinho galopeava o parelheiro baio; depois conduzia os avios do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino, que o judiava e se ria.

***

Um dia depois de muitas negaças, o estancieiro atou carreira com um seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro que não, que não! que a parada devia ser do dono do cavalo que ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada, mil onças de ouro. No dia aprazado, na cancha da carreira havia gente como em festa de santo grande.

Erva-Caúna – Variedade de mate, de qualidade inferior, e amargo.

Cacimbas – nascente d´aua – olho d´agua.

Onças – aqui, moeda da época.

Entre os dois parelheiros, a gauchada não sabia se decidir, tão perfeito era e bem lançado cada um dos animais. Do baio era fama que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não lhe viam as patas baterem no chão... E do mouro
era voz que quanto mais cancha, mais agüente e que desde a largada ele ia ser como um laço que se arrebenta...

As parcerias abriram as guaiacas, e aí no mais já se apostavam aperos contra rebanhos e redomões contra lenços.

—Pelo baio! Luz e doble!…

—Pelo mouro! Doble e luz!...

Os corredores fizeram as suas partidas à vontade e depois as obrigadas; e quando foi na última, fizeram ambos a sua senha e se convidaram. E amagando o corpo, de rebenque no ar, largaram, os parelheiros meneando cascos, que parecia uma tormenta...

— Empate! Empate! — gritavam os aficionados ao longo da cancha por onde passava a parelha veloz, compassada como numa colhera.

— Valha-me a Virgem madrinha, Nossa Senhora! — gemia o Negrinho.

— Se o sete-léguas perde, o meu senhor me mata! hip! hip! hip!...

E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio.

— Se o corta-vento ganhar é só para os pobres!... retrucava o outro corredor. Hip! hip!

E cerrava as esporas no mouro.

Mas os fletes corriam, compassados como numa colhera, Quando foi na última quadra, o mouro vinha arrematado e o baio vinha aos tirões… mas sempre juntos, sempre emparelhados.

E a duas braças da raia, quase em cima do laço, o baio assentou de supetão, pôs-se em pé e fez uma caravolta, de modo que deu ao mouro tempo mais que preciso para passar, ganhando de luz aberta! E o Negrinho, de em pêlo, agarrou-se como um ginetaço.

— Foi mau jogo! — gritava o estancieiro.

— Mau jogo! — secundavam os outros da sua parceria.

A gauchada estava dividida no julgamento da carreira; mais de um torena coçou o punho da adaga, mais de um desapresilhou a pistola, mais de um virou as esporas para o peito do pé... Mas o juiz, que era um velho do tempo da guerra de Sepé-Tíaraju, era um juiz macanudo, que já tinha visto muito mundo. Abanando a cabeça branca sentenciou, para todos ouvirem:

— Foi na lei! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro, Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem gateadas; quem as ganhou venha buscá-las. Foi na lei!

Não havia o que alegar. Despeitado e furioso, o estancieiro pagou a parada, à vista de todos, atirando as mil onças de ouro sobre o poncho do seu contrário, estendido no chão.

Torena – indivíduo forte valente, destemido.

E foi um alegrão por aqueles pagos, porque logo o ganhador mandou distribuir tambeiros e leiteiras, côvados de baeta e baguais e deu o resto, de mota, ao pobrerio. Depois as carreiras seguiram com os changueiritos que havia.

***

O estancieiro retirou-se para a sua casa e veio pensando, pensando calado, em todo o caminho. A cara dele vinha lisa, mas o coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado a meia espalda… O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma.

E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.

Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha falou assim:

— Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta dias ficarás aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos negros... O baio fica de piquete na soga e tu ficarás de estaca!

O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos iam pastando.

Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O Negrinho, varado de fome e já sem força nas mãos, enleou a soga num pulso e deitou-se encostado a um cupim.

Vieram então as corujas e fizeram roda, voando, paradas no ar, e todas olhavam-no com os olhos reluzentes, amarelos na escuridão. E uma piou e todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem barulho nas asas.

O Negrinho tremia, de medo... porém de repente pensou na sua madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu.

E dormiu. Era já tarde da noite, iam passando as estrelas; o Cruzeiro apareceu, subiu e passou; passaram as Três-Marias: a estrela-d'alva subiu...

Então vieram os guaraxains ladrões e farejaram o Negrinho e cortaram a guasca da soga. O baio sentindo-se solto rufou a galope, e toda a tropilha com ele, escaramuçando no escuro e desguaritando-se nas canhadas.

O tropel acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram, dando berros de escárnio. Os galos estavam cantando, mas nem o céu nem as barras do dia se enxergava: era a cerração que tapava tudo.

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.

***

O menino maleva foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não estavam.

O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.

E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o perdido. Rengueando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa, tomou o coto de vela acesa em frente da imagem e saiu para o campo.

Por coxilhas e canhadas, na beira dos lagoões, nos paradeiros e nas restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta ia pingando cera no chão; e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram tantas que clareavam tudo. O gado ficou deitado, os touros não escarvaram a terra e as manadas xucras não dispararam... Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou por diante a tropilha, até a coxilha que o seu senhor lhe marcara.

E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu...

Gemendo, gemendo, o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo instante apagaram-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua madrinha, o Negrinho dormiu. E não apareceram nem as corujas agoureiras nem os guaraxains ladrões; porém pior do que os bichos maus, ao clarear o dia veio o menino, filho do estancieiro e enxotou os cavalos, que se dispersaram, disparando campo fora, retouçando e desguaritando-se nas canhadas.

O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai que os cavalos não estavam lá...

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou...

***

O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos, a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho... dar-lhe até ele não mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue vivo escorrendo do corpo… O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e Senhora Nossa, deu um suspiro triste, que chorou no ar como uma música, e pareceu que morreu...

E como já era noite e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o estancieiro mandou atirar o corpo do Negrinho na panela de um formigueiro, que era para as formigas devorarem-lhe a carne e o sangue e os ossos... E assanhou bem as formigas, e quando elas, raivosas, cobriam todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-la é que então ele se foi embora, sem olhar para trás.

Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo, mil vezes e que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro… e que tudo isto cabia folgado dentro de um formigueiro pequeno...

Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros e a casca das frutas.

Coto – pedaço; mesmo que toco.

Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto. E três dias houve cerração forte, e três noites o estancieiro teve o mesmo sonho.

***

A peonada bateu o campo, porém ninguém achou a tropilha e nem rastro.

Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava do corpo do escravo.

Qual não foi o seu grande espanto, quando chegado perto, viu na boca do formigueiro o Negrinho de pé, com a pele lisa, perfeita, sacudindo de si as formigas que o cobriam ainda!... O Negrinho, de pé, e ali ao lado, o cavalo baio e ali junto a tropilha dos trinta tordilhos... e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu a madrinha dos que não a têm, viu a Virgem, Nossa Senhora, tão serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu... Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.

E o Negrinho, sarado e risonho, pulando de em pêlo e sem rédeas; no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.

E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não chorou, e nem se riu.

***

Correu no vizindário a nova do fadário e da triste morte do Negrinho, devorado na panela do formigueiro.

Porém logo, de perto e de longe, de todos os rumos do vento, começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo...

E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, mascates e carreteiros, todos davam notícia — da mesma hora — de ter visto passar, como levada em pastoreio, uma tropilha de tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pêlo, em um cavalo baio!…

Então, muitos acenderam velas e rezaram o Padre Nosso pela alma do judiado. Daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma cousa, o que fosse, pela noite velha o Negrinho campeava e achava, mas só entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele levava para pagar a do altar da sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o remiu e salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia, sem ninguém ver.

***

Todos os anos, durante três dias, o Negrinho, desaparece: está metido em algum formigueiro grande, fazendo visita às formigas, suas amigas; a sua tropilha esparrama-se, e um aqui, outro por. lá, os seus cavalos retouçam nas manadas das estâncias. Mas ao nascer do sol do terceiro dia, o baio relincha. perto do seu ginete; o Negrinho monta-o e vai fazer a sua recolhida; é quando nas estâncias acontece a disparada das cavalhadas e a gente olha, olha, e não vê ninguém, nem na ponta, nem na culatra.

***

Desde então e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho, sarado e risonho, cruza os campos, corta os macegais, bandeia as restingas, desponta os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas e desce às canhadas.

O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem achados pelos seus donos, quando estes acendem um coto de vela, cuja luz ele leva para o altar da Virgem Senhora Nossa, madrinha dos que não a têm.

Quem perder suas prendas no campo, guarde esperança: junto de algum moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo —Foi por aí que eu perdi... Foi por aí que eu perdi... Foi por ai que eu perdi!...

Se ele não achar… ninguém mais.

Culatra – Retaguarda de um rebanho.

Prendas – Jóias. Algo que se preza.

LEI Nº 8.814, DE 10 DE JANEIRO DE 1989.

Postado por Djeine A. Dalla Corte | segunda-feira, dezembro 08, 2008 | , , | 0 comentários »


Fixa o dia 04 de dezembro como o "DIA DO POETA REPENTISTA GAÚCHO e do ARTISTA REGIONAL GAÚCHO", no Estado do Rio Grande do Sul.

DEPUTADO ALGIR LORENZON, Presidente da Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul.

Faço saber, em cumprimento ao disposto no § 5º do artigo 37 da Constituição do Estado, que a Assembléia Legislativa decretou e eu promulgo a seguinte Lei:

Art. 1º - Fica estipulado o dia quatro (04) de dezembro como efeméride dedicada à pública homenagem ao poeta repentista gaúcho e ao artista regionalista gaúcho, no Estado do Rio Grande do Sul.

Art. 2º - As comemorações oficiais ficarão a cargo do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore - IGTF.

Art. 3º - Consagra GILDO DE FREITAS (Leovegildo José de Freitas), falecido a 04 de dezembro de 1982, patrono do poeta repentista gaúcho e TEIXEIRINHA (Victor Matheus Teixeira), falecido a 04 de dezembro de 1985, patrono do artista regionalista gaúcho.

Art. 4º - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 5º - Revogam-se as disposições em contrário.



ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO, em Porto Alegre, 10 de janeiro de 1989.

Ladrão de Felicidade

Postado por Djeine A. Dalla Corte | sexta-feira, dezembro 05, 2008 | , | 1 comentários »

Poesia escolhida pela Prenda do Mês de Dezembro Liriane dos Santos.

Autor: Salvador Lamberty

Num paraíso de sonhos
Marlene e José se amavam
Toda vez que se encontravam
Juravam eterno amor
Mas o destino traidor
Cruel, amargo e atrevido,
Jogou seus sonhos floridos
Numa cascata de dor.

Marlene, uma moça rica,
Um futuro tão brilhante
O seu olhar fascinante
Tornava a mais preferida
Por todos era querida,
Era meiga e tão formosa,
Como o florar de uma rosa
Na primavera da vida.

Enquanto José era pobre,
Vivia do seu trabalho.
Era uma gota de orvalho
No jardim da humanidade
Com tanta honestidade,
Fibra, ardor e respeito,
Tinha um coração no peito
Feito de amor e bondade.

Num lapso de muitos dias
Ele foi correspondido,
Era um romance escondido
Mas tão cheio de pureza.
Naquela estranha beleza
Pelo amor que então sentia.
Esqueceu tudo o que tinha
Para enfrentar a pobreza.

Até que um dia Marlene
Foi chamada por seu Pai:
Minha filha você vai
Contar tudo o que se passa
Não quero que uma desgraça
Venha nos trazer tristeza.
Conte tudo com franqueza
Deixe de fazer trapaça.

Marlene baixou os olhos
Lágrimas pelo seu rosto:
Papai se lhe dou desgosto
De joelhos peço perdão.
Eu sei que a tua intenção
E que eu viva pros estudos,
Mas eu amo acima de tudo
São ordens do coração."

Houve um olhar em silêncio
Como um sinal de revolta:
“- Eu prefiro vê-la morta
Deitada sobre um caixão
Frente a uma multidão
Rodeada de quatro velas,
Prefiro nunca mais vê-la
Se casar com aquele peão."

Foi como se um temporal
Desmoronasse um castelo.
Um coração tão singelo
Pra suportar tanta dor
"- Se na vida só há um amor
E me roubam a liberdade,
Um mundo de crueldades
Para mim não tem valor."

Quando foi tarde da noite
la foi sem ninguém ver
Ao seu amado dizer
A sua infelicidade
E envolvidos pela maldade,
Num olhar temo e sereno
Por um copo de veneno
Partiram para eternidade.

No outro dia a alvorada
Era um painel de tristezas.
Enlutou-se a natureza
Quando foram encontrados,
Estavam bem abraçados
E inertes sobre o chão,
Ela trazia entre as mãos
Num bilhete este recado:

“- Papai, teu desejo foi feito,
Podes me ver sobre a mesa
Não lamentes de tristeza,
Nem chores a infelicidade.
Fiques com tua vaidade,
Teu orgulho amaldiçoado
E o remorso de ter me roubado
A vida e a felicidade.

Diga à mamãe que lá do céu
Eu vou sentir a falta dela.
Entregues um beijo a ela
E diz pra me perdoar.
Talvez ela vá chorar
Pois parto sem dizer nada,
Já que aqui não tem morada
Pra quem aprendeu a amar.”

Este foi mais um romance
Que o tal destino exauriu.
Duas flores que pelo frio
Secaram ao rigor do vento.
Com linhas de pensamento
Formou-se um livro de ensinos,
Escrito pelo destino,
Com letras de sofrimento.

Que isso sirva de exemplo
A muitos pais de família,
Que fazem de suas filhas
Objetos de ambição.
Essa dramática lição
Mostra ao povo interesseiro.
Que o orgulho e o dinheiro
Não mandam no coração.

Senhor das Manhãs de Maio

Postado por Djeine A. Dalla Corte | sexta-feira, dezembro 05, 2008 | , , | 0 comentários »

A música "Senhor das Manhãs de Maio" foi escolhida pela Prenda do Mês de Dezembro, Liriane dos Santos como sendo sua preferida.

Gujo Teixeira / Luiz Marenco

Meu galpão de alma tranqüila
ressuscita todo dia...
Cada vez que o sol destapa
sua silhueta sombria
e desenha cinamomos
na minha querência vazia...

- Senhor das manhãs de maio
ceva este mate pra mim
que eu venho a tempos de lua
minguando sonhos assim:
- Os que eu posso, sonho aos poucos
os que eu não posso, dou fim...

Silencio quando posso
Quando quero sou estrada
diviso as coisas do tempo
bem antes da madrugada.
Numa prece que bem me lembro
refaço minhas orações:
- "Pai nosso que estais no céu
precisai vir aos galpões!"

No descaso dos galpões
- solito quando me vejo -
é que se achega a saudade
com seus olhos de desejo.
Pondo estrelas madrugueiras
neste céu de picumã
parecendo que se adentra
pra contemplar minha manhã.

Meus sonhos domei pra lida
pra minha rédea, ao meu gosto
pras dores da minha alma
se ela cruzar esse agosto.
- Por favor Senhor dos mates
não deixe a manhã tão triste
mateia junto comigo
que eu sei que tu ainda existe...

Teixeirinha

Postado por Djeine A. Dalla Corte | quinta-feira, dezembro 04, 2008 | , , , , | 0 comentários »

Victor Matheus Teixeira, mais conhecido como Teixeirinha, nasceu em Rolante, em 3 de março de 1927 — e faleceu em Porto Alegre em 4 de dezembro de 1985. Foi um cantor e compositor brasileiro, também conhecido como o Rei do Disco, pelos recordes de vendas de discos que conseguiu em sua época.

Biografia

Teixeirinha teve uma infância difícil, especialmente por ter perdido aos sete anos o pai, um carreteiro, e aos nove anos a mãe, em um incêndio. Em 1960 tornou-se sucesso nacional com o lançamento de "Coração de Luto",que falava da trágica morte de sua mãe, no programa do Chacrinha. Em 1961 conheceu em Bagé a cantora Mary Terezinha, que se tornou sua efetiva companheira.

Atuou também no cinema, sendo que o filme Coração de Luto, de 1967, era uma autobiografia.

Teixeirinha é um típico músico da música gaúcha, sendo ele um ícone do estilo. Uma de suas canções mais famosas é "Querência Amada", que em sua introdução possui uma dedicatória ao pai e acabou se tornando um hino informal ao Rio Grande do Sul.

Teixeirinha e Mazzaropi foram os maiores fenômenos populares do cinema sul-americano regional. No caso do cantor gaúcho, seus filmes chegaram a superar 1,5 milhões de espectadores, obtidos apenas nos três estados do sul do país. Eram co-produzidos por distribuidores e exibidores locais, que lhes asseguravam a permanência em cartaz. Sua última produção, "A Filha De Iemanjá" foi distribuída pela Embrafilme com fracos resultados. Uma análise mais detalhada dos resultados de exibição pode conduzir a uma melhor compreensão da relação regional da distribuição e da exibição.

Discografia

1960 - O Gaúcho Coração do Rio Grande
1961 - Assim é nos pampas
1961 - Um gaúcho canta para o Brasil
1962 - Saudades de Passo Fundo
1962 - Teixeirinha, volume 4
1963 - Teixeirinha Show
1963 - Teixeirinha interpreta
1963 - Êta gaúcho bom
1964 - Gaúcho autêntico
1964 - Canarinho cantador
1965 - O rei do disco
1965 - Bate-bate coração
1966 - Disco de ouro
1966 - Teixeirinha no cinema
1967 - Coração de Luto - trilha sonora do filme
1967 - Mocinho aventureiro
1967 - Dorme Angelita
1968 - Doce coração de mãe
1968 - Última tropeada
1969 - O rei
1969 - Volume de prata
1970 - Carícias de amor
1971 - Fora de série
1971 - Entre a cruz e o amor
1971 - Chimarrão da hospitalidade
1972 - Ela tornou-se freira - trilha sonora do filme
1972 - Minha homenagem
1973 – O Internacional
1973 - Sempre Teixeirinha
1974 - Última gineteada / Menina que passa
1975 - Pobre João - trilha sonora do filme
1975 - Aliança de ouro
1975 - Lindo Rancho
1977 - Norte a Sul
1977 - Canta meu povo / Fronteira gaúcha
1978 - Amor de verdade / Inseparável violão
1978 - Menina da gaita / O Centro-Oeste brasileiro
1979 - 20 anos de glória
1980 - Menina Margareth / Vida e morte
1981 - Iemanjá - trilha sonora do filme
1982 - Que droga de vida / Infância frustrada
1982 - Dez desafios inéditos - Teixeirinha e Mary Terezinha
1983 - Chegando de longe / Apenas uma flor
1984 - Guerra dos desafios - Teixeirinha e Nalva Aguiar
1984 - Quem é você agora / Amor desfeito
1985 - Amor aos passarinhos
1993 - Os Grandes Sucessos de Teixeirinha (Póstumo)
1994 - Teixeirinha Canta com Amigos (Póstumo)

Participação Especial

1980 - A Grande Noite da Viola

Filmografia

1967 - Coração de Luto
1969 - Motorista sem limites
1972 - Ela Tornou-se Freira
1973 - Teixeirinha 7 Provas
1974 - O Pobre João
1976 - Na Trilha da Justiça
1976 - Carmen a Cigana
1976 - A Quadrilha do Perna Dura
1978 - Meu Pobre Coração de Luto
1978 - Gaúcho de Passo Fundo
1979 - Tropeiro Velho
1981 - A Filha de Iemanjá


Gildo de Freitas

Postado por Djeine A. Dalla Corte | quinta-feira, dezembro 04, 2008 | , , | 0 comentários »

Biografia

Nome: Leovegildo José de Freitas.

Data de Nascimento: 19 de junho de 1919.

Local de Nascimento: Bairro do Passo d'Areia, Porto Alegre, filho de Vergílio José de Freitas e Georgínia de Freitas.

Profissão: Muitas, trabalhador, fora-da-lei, negociante, político, ídolo e mito, mas a rigor apenas uma: trovador e cantador popular. Considerado até pelos seus inimigos como o maior dos trovadores gaúchos. Fez sucesso versando sobre as coisas do Rio Grande. A rapidez de raciocínio e o humor eram suas maiores qualidades. Fez fama nos programas de rádio ao vivo na década de 50 e foi grande amigo de Teixeirinha, com quem disputou popularidade e acabou brigando em 1977. Foi amigo de Getúlio Vargas e por isso considerado subversivo após o golpe de 64. Também de especializou em animar bailões de músicas gaúchas e alegrar o povo.

Cronologia

1931 - Gildo foge de casa pela primeira vez, aos 12 anos.
1937 - É tido como desertor, por não ter se apresentado à convocação militar. Envolve-se na primeira briga séria, onde morre um jovem amigo. Primeira prisão. Cria ódio da polícia.
1941 - Casamento com dona Carminha. Passa a ter morada fixa no bairro de Niterói, em Canoas, Grande Porto Alegre. Continuam os contratempos com a polícia.
1944 - Nasce o primeiro filho depois de dois perdidos. Gildo começa a viajar bastante e a ser reconhecido como trovador. A polícia mantem-se em cima.
1949 - Trovador com fama ascendente em todo o Rio Grande do Sul, desaparece de casa e reaparece na fronteira gaúcha. Em longa temporada passada no Alegrete, mal consegue caminhar, com problema de paralisia nas pernas.
1950/51 - Em São Borja, conhece Getúlio Vargas e entra em sua campanha política. Param as perseguições policiais. Primeira viagem ao Rio de Janeiro.
1953/54 - Faz fama como trovador nos progamas de rádio ao vivo em Porto Alegre. Volta à viver no Passo d`Areia, com a família.
1955 - Encontro e identificação como Teixeirinha. Muitas viagens. Mudança para o bairro Passo do Feijó e abertura do primeiro bolicho.
1956/60 - Maior atração do programa Grande Rodeio Coringa dos domingos à noite. Mais viagens com Teixeirinha.
1961/62 - Declínio dos progamas de rádio ao vivo, televisão começando. Gildo resolve largar de mão a "cantoria" e inventa de criar porcos.
1963 - Viagem a São Paulo para gravar o primeiro disco.
1964 - É lançado o primeiro LP. Em meados do ano é "convidado" a prestar depoimento sobre suas ligações com o trabalhismo.
1965 - Início da célebre disputa com Teixeirinha através dos discos. Jango o convida para viver no Uruguai e ele não aceita.
1970/77 - Várias internações em hospitais, sucesso popular das gravações, muitas viagens. A "briga" com Teixeirinha chega ao auge. Mudança para Viamão.
1978 - Inaugura em Viamão a Churrascaria Gildo de Freitas e dá início aos bailões.
1982 - Grava o último disco, para a mesma gravadora dos outros todos, Continental. Última internação em hospital, últimas aparições públicas em programas de TV. Morte em 4 de dezembro.

Observação: O A Lei Estadual 8814, de 10 de janeiro de 1989, cujo Projeto de Lei foi de autoria do então Deputado Joaquim Moncks e justificativa com mais de vinte folhas.

Esta Lei, "Fixa o dia 4 de dezembro como o "DIA DO POETA REPENTISTA GAÚCHO e do ARTISTA REGIONAL GAÚCHO", no Estado do Rio Grande do Sul. Consagra como patronos respectivamente Gildo de Freitas e Teixeirinha, pois ambos morreram em 4 de dezembro, o Gildo em 1982 e o Teixeirinha em 1985.

Algumas de suas músicas :

Baile do Chico Torto
Definiçâo das pilchas
Definição do Grito
Eu Não Sou Convencido
Eu Reconheço Que Sou Um Grosso
Figueira amiga
História dos Passarinhos
Homem feio não possui mulher bonita
Homem Sem Coragem
Lembrança Do Passado
Mula Preta
Percorrendo o Rio Grande
Que negrinha boa
Rancho de Capim Barreado
Resposta do Relho Trançado
Saudades de Minha Terra
Sistema Dos Pagos
Trança De China

Passo Fundo homenageia Teixeirinha e Gildo de Freitas

Postado por Djeine A. Dalla Corte | quinta-feira, dezembro 04, 2008 | , , , | 0 comentários »

Acontece hoje, dia 04 de dezembro, em Passo Fundo, na Praça do Teixeirinha uma Tertúlia com mateada, organizada pela Rádio Planalto em homengem aos dois baluartes da música e da trova do Rio Grande.

Na Praça que leva o nome do Teixeirinha, onde há um monumento construído pelo artista plástico Paulo Siqueira, se reunirão músicos, trovadores e artistas para rememorar as clássicos dos dois artistas que tanto contribuíram para a formação da musica gaúcha.

Leia mais no Gaudérios sobre Teixeirinha e Gildo de Freitas.

A comemoração nesta data deve-se a:


A qual estabelece o dia 04 de dezembro como o "DIA DO POETA REPENTISTA GAÚCHO e do ARTISTA REGIONAL GAÚCHO", no Estado do Rio Grande do Sul, em função de se tratar do dia e mês de falecimento de Teixeirinha e Gildo de Freitas.

Prenda do mês de Dezembro - Liriane Dos Santos

Postado por Mauro dos Reis | segunda-feira, dezembro 01, 2008 | , , , , , | 0 comentários »


Gaudérios: Tu és natural de que cidade? Falas um pouco de ti e de tuas raízes (como seu meio de convívio, familiares e amigos, influenciaram seu interesse pela cultura gaúcha?).

Primeiramente eu gostaria de agradecer o convite do blog Gaudérios para esta entrevista.

Bem, me chamo Liriane Dos Santos, tenho 17 anos, sou natural de Itaqui, fronteira oeste do estado, mas moro em Alvorada desde os meus seis anos. Meus pais sempre freqüentaram CTGs, antes mesmo de começar a andar e falar eu já usava vestidos de prenda e freqüentava os bailes da minha cidade natal, mas o interesse pela cultura gaúcha veio mesmo depois de estar morando algum tempo aqui em Alvorada quando resolvi entrar para a invernada juvenil do CTG Amaranto Pereira (CTG que represento até hoje), em 2005.

Após meu ingresso na invernada juvenil veio o convite para participar do concurso interno de prendas, até então não conhecia praticamente nada da cultura gaúcha, mas graças ao apoio de amigos, dos meus pais e do então Diretor Cultural o Sr.Adair Rocha, o tio Adair, eu recebi a faixa de 2ª Prenda Adulta em 2006.

Gaudérios: Qual a relação que tens com a tradição Gaúcha atualmente?

Atualmente sou a 1ª Prenda do meu CTG, o Amaranto Pereira, e também sou a Prenda Farroupilha do município de Alvorada. (Entrevista concedida em Junho de 2008.)
Também danço atualmente na invernada adulta do meu CTG.



Gaudérios: Participaste de um concurso de prendas, poderias falar como foi o concurso, quais habilidades a prenda precisa demonstrar? Conte-nos um pouco sobre o que aconteceu nos bastidores (dificuldades e alegrias).

Nesta curta vivência tradicionalista que tenho já participei de três concursos de prendas, sendo eles: dois concursos internos e o concurso de prenda farroupilha.

O concurso interno é dividido em quatro partes: Prova escrita, Mostra Folclórica, Prova Oral e Prova Artística.

Na prova escrita são avaliados conhecimentos de história e geografia do RGS e também conhecimentos sobre tradicionalismo, folclore e tradição.

Na mostra folclórica é feito um resgate de algum tema pré-definido como por exemplo: lendas, festas, folguedos, religiosidade e artesanato. Em 2007, por exemplo, o tema da mostra folclórica do meu CTG foi artesanato com materiais recicláveis.

Na prova oral a prenda deve discorrer espontaneamente sobre um tema sorteado, podendo este tema ser sobre história, geografia, tradição, tradicionalismo e folclore.

Na prova artística a prenda deve dançar uma dança tradicional e uma dança de salão, além de escolher entre tocar um instrumento musical, cantar ou declamar.

No concurso de Prenda Farroupilha do município além dessas provas a prenda também deve demonstrar conhecimento sobre a história e a geografia do seu município.

Graças ao apoio dos meus pais, dos meus amigos e da patronagem do meu CTG eu não tive muitas dificuldades em meus concursos, sempre dá aquele nervosismo, mas a alegria de estar representando o meu CTG e o apoio dos meus amigos faz valer a pena todo o nervosismo.

Gaudérios: O que gostarias de dizer para as prendas que estão iniciando na tradição, ou até mesmo para aquelas que já participam de eventos tradicionalistas, em relação a ser uma autêntica prenda?

Pra mim ser uma autêntica prenda é acima de tudo amar esse nosso estado e as suas tradições, sendo ou não prenda de faixa. O recado que eu deixe para as prendas é: Não tenham vergonha, mas sim orgulho de serem representantes de uma cultura tão linda como é a cultura Riograndense, e acima de tudo amem muito o que vocês fazem e lutem sempre pelos seus objetivos.


Gaudérios: Em relação à Cultura Gaúcha:

Qual tua música preferida? São muitas, mas tem uma que acho muito linda que é a musica Senhor das manhãs de maio.

Poesia? Ladrão de Felicidade de Salvador Ferrando Lamberty.

Livro? História do RGS - Moacir flores, Rio Grande Do Sul História e tradições - José Machado Leal, Alvorada Tradicionalista, Recital de Poesias para Prendas - Salvador Ferrando Lamberty.

Sites? www.mtg.org.br

Comunidades?
http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=5430433 (1ª Região Tradicionalista)
http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=420170 (MTG)
http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=10486273 (Poesia Gaúcha)

Gaudérios: Qual o comentário que gostarias de fazer para complementar nossa conversa, por favor, fique a vontade?

Bem, eu gostaria de agradecer mais uma vez pelo convite, e dizer que é sempre um prazer contribuir para fortalecer cada dia mais as tradições e a cultura do nosso Rio Grande Do Sul.





Gaudérios: Depois de algum tempo sem prendas no quadro Prenda do Mês, o Blog Gaudérios se alegra em encerrar o ano de 2008 com a prenda Liriane Dos Santos que, como as demais participantes, demontra um profundo sentimento de amor e respeito aos costumes autênticos do povo gaúcho. Ficamos honrados com a possibilidade de divulgação destas prendas que se dispõe a aprender tanto sobre a sua cultura, numa época em que cada vez mais as tradições se perdem. Abraços a Todos!


Gostastes da entrevista? Então deixas teu comentário!
O Blog Gaudérios agradece!