Homenagem a Antônio Augusto Brum Ferreira

Postado por msr4k | sábado, maio 31, 2008 | , , | 2 comentários »



"Neste fogo onde me aquento remou as coisas que penso
Repasso o que tenho feito para ver o que mereço
Quando chegar meu inverno que me vem branqueando o cerro
Vai me encontrar venta aberta de coração estreleiro
Mui carregado de sonhos que habitam o meu peito
E que irão morar comigo no meu novo paradeiro"
(Veterano, composição: Antônio Augusto Ferreira e Ewerton Ferreira)

Certamente este novo paradeiro são as canções, prosas e poesias que Antônio Augusto Brum Ferreira construiu ao longo de sua vida. Sim, o autor de Veterano agora mora em seus livros, canções, poesias e revive cada vez que é lido, declamado ou escutado. Sua voz ecoa na cultura gaúcha, suas palavras juntam-se as de outros gaúchos na formação dos pilares da nossa tradição.


"Antonio Augusto nasceu em São Sepé, em 1935. Mudou-se na infância para a cidade de Passo Fundo, onde viveu até 1953, quando passou a residir em Porto Alegre. Através de concursos públicos, foi escrivão em Sananduva, Pelotas e Passo Fundo, antes de ser transferido para o Oficio do Registro de Imóveis de Santa Maria (...)."[1]
"O gosto inato pela cultura sul-rio-grandense levou-o a participar, aos 16 anos de idade, da fundação do CTG Lalau Miranda, em Passo Fundo, e a freqüentar o 35 CTG, em Porto Alegre, na década de 50, época em que passou a publicar poemas de sua autoria sob o pseudônimo de "Tocaio Ferreira". Assim que chegou a Santa Maria, Antônio Augusto passou a fazer parte da Associação Tradicionalista Estância do Minuano (...)."[1]

"Premiado em diversos festivais de música, Ferreira escreveu cinco livros e uma obra que chamam atenção pela musicalidade e pela inspiração no universo campeiro."[2]

Linha de tempo das principais conquistas de Antônio Ferreira
1935 - Nasce Antônio Augusto Brum Ferreira, em São Sepé
1980 - Vence a 10ª Califórnia da Canção Nativa com a composição Veterano.
1985 - Antônio Ferreira lançou seu primeiro livro, Sol de Maio (poesia).
1997 - Segunda obra, Alma de Poço (poesias).
2001 - Ganhou o troféu Negrinho do Pastoreio da Poesia Campeira.
2003 - Publicação de Tio Bonifa e Seu Cachorro Piraju.
-
Patrono da Feira do Livro de Santa Maria.
2004 - Eleito para integrar a Academia Rio-Grandense de Letras, (cadeira 28).

10ª CALIFÓRNIA 1980 - 1º LUGAR: VETERANO


Veterano

Composição: Antônio Augusto Ferreira e Ewerton Ferreira

Está findando o meu tempo a tarde encerra mais cedo
Meu mundo ficou pequeno e eu sou menor do que penso
O bagual tá mais ligeiro, o braço fraqueja às vezes
Demoro mais do quero mas alço a perna sem medo
Encilho o cavalo manso mas boto o laço nos tentos
Se a força falta no braço na coragem me sustento

(Se lembro os tempos de quebra a vida volta pra trás
Sou bagual que não se entrega assim no más) 2x

Nas manhãs se primavera quando vou parar rodeio
Sou menino de alma leve voando sobre os pelegos
Cavalo do meu potreiro mete a cabeça no freio
Encilho no parapeito mas não ato nem maneio
Se desencilho o pelego cai no banco onde me sento
Água quente e erva buena para matear em silêncio

(Se lembro os tempos de quebra a vida volta pra trás
Sou bagual que não se entrega assim no más)2x

Neste fogo onde me aquento remou as coisas que penso
Repasso o que tenho feito para ver o que mereço
Quando chegar meu inverno que me vem branqueando o cerro
Vai me encontrar venta aberta de coração estreleiro
Mui carregado de sonhos que habitam o meu peito
E que irão morar comigo no meu novo paradeiro

(Se lembro os tempos de quebra a vida volta pra trás
Sou bagual que não se entrega assim no más)2x

Bibliografia
1. http://www.colegioregistralrs.org.br/noticia.asp?cod=188
2. Zero Hora,
17/03/2003.


Os Gaúchos - por Arnaldo Jabor

Postado por msr4k | sexta-feira, maio 30, 2008 | 0 comentários »


O Rio Grande do Sul é como aquele filho que sai muito diferente do resto da família. A gente gosta, mas estranha. O Rio Grande do Sul entrou tarde no mapa do Brasil . Até o começo do século XIX, espanhóis e portugueses ainda se esfolavam para saber quem era o dono da terra gaúcha. Talvez por ter chegado depois, o Estado ficou com um jeito diferente de ser.

Começa que diverge no clima: um Brasil onde faz frio e venta, com pinheiros em vez de coqueiros, é tão fora do padrão quanto um Canadá que fosse à praia. Depois, tem a mania de tocar sanfona, que lá no RS chamam de gaita, e de tomar mate em vez de café. Mas o mais original de tudo é a personalidade forte do gaúcho. A gente rigorosa do sul não sabe nada do riso fácil e da fala mansa dos brasileiros do litoral, como cariocas e baianos. Em lugar do calorzinho da praia, o gaúcho tem o vazio e o silêncio do pampa, que precisou ser conquistado à unha dos espanhóis.

Há quem interprete que foi o desamparo diante desses abismos horizontais de espaço que gerou, como reação, o famoso temperamento belicoso dos sulinos.
É uma teoria - mas conta com o precioso aval de um certo Analista de Bagé, personagem de Luis Fernando Veríssimo que recebia seus pacientes de bombacha e esporas, berrando: "Mas que frescura é essa de neurose, tchê?"

Todo gaúcho ama sua terra acima de tudo e está sempre a postos para defendê- la.
Mesmo que tenha de pagar o preço em sangue e luta.
Gaúcho que se preze já nasce montado no bagual (cavalo bravo). E, antes de trocar os dentes de leite, já é especialista em dar tiros de laço. Ou seja, saber laçar novilhos à moda gaúcha, que é diferente da jeito americano, porque laço é de couro trançado em vez de corda, e o tamanho da laçada, ou armada, é bem maior, com oito metros de diâmetro, em vez de dois ou três.
Mas por baixo do poncho bate um coração capaz de se emocionar até as lágrimas em uma reunião de um Centro de Tradições Gaúchas, o CTG, criados para preservar os usos e costumes locais.

Neles, os durões se derretem: cantam, dançam e até declamam versinhos em honra da garrucha, da erva-mate e outros gauchismos. Um dos poemas prediletos é "Chimarrão", do tradicionalista Glauco Saraiva, que tem estrofes como: "E a cuia, seio moreno/que passa de mão em mão/traduz no meu chimarrão/a velha hospitalidade da gente do meu rincão." (bem, tirando o machismo do seio moreno, passando de mão em mão, até que é bonito).
Esse regionalismo exacerbado costuma criar problemas de imagem para os gaúchos, sempre acusados de se sentir superiores ao resto do País.

Não é verdade - mas poderia ser, a julgar por alguns dados e estatísticas.
O Rio Grande do Sul é possuidor do melhor índice de desenvolvimento humano do Brasil, de acordo com a ONU, do menor índice de analfabetismo do País, segundo o IBGE e o da população mais longeva da América Latina, (tendo Veranópolis a terceira cidade do mundo em longevidade), segundo a Organização Mundial da Saúde. E ainda tem as mulheres mais bonitas do País, segundo a Agência Ford Models. (eu já sabia!!!rss) Além do gaúcho, chamado de machista", qual outro povo que valoriza a mulher a ponto de chamá-la de prenda (que quer dizer algo de muito valor)?
Macanudo, tchê. Ou, como se diz em outra praças: "legal às pampas", uma expressão que, por sinal, veio de lá.
Aos meus amigos gaúchos e não gaúchos, um forte abraço!

Arnaldo Jabor